terça-feira, 18 de novembro de 2008

E agora?

Na sequência de duas grandes manifestações de professores, o que vamos fazer? O ME, na pessoa da Ministra da Educação, diz que não recua na «guerra» - palavras da ME – com os professores. Se é guerra, vamos a isso.
Este ECD, NÃO! Queremos um estatuto de carreira, não queremos um estututo penal. Queremos um estatuto negociado e não imposto. Queremos ser chamados a colaborar, não nos basta tomar conhecimento do que o ME entendeu, desta vez, decidir por nós. Passamos mais de metade das nossas vidas a trabalhar, devemos ter alguma coisa a decidir sobre a forma como esse trabalho vai ser regulamentado. Somos pessoas, que diabo!
Atrevo-me a sugerir que a redução de horário lectivo associada à idade, que deve ser mantida, seja convertida em horas para orientação e apoio, mesmo em sala de aula, aos colegas mais jovens e às turmas e alunos com mais dificuldade, por exemplo.
Substituição e permuta nos casos em que a falta pode ser prevista e as actividades de substituição planeadas. Deixe-se também algum espaço para os alunos terem e gerirem algum tempo livre, quando, por motivos imprevistos, falta um professor. As escolas têm biblioteca, ginásio, campos de jogos. E as que os não têm... é um bom investimento construi-los e apetrechá-los. Basta que seja regra o não poder andar pelos corredores e que haja quem possa zelar pelo cumprimento dessa regra. Pessoal auxiliar de acção educativa. Pessoal e não burros de carga. Saberá o público que os seus filhos não estão em segurança nos recreios, porque é impossível destacar pessoal para os vigiar? Que às vezes a falta de pessoal é tanta que não se pode controlar quem entra e sai? Que uma só auxiliar chega a ter que limpar doze salas de aula numa hora? Que pode acontecer que 500 alunos e 100 professores tenham que ser atendidos nos 15 minutos de intervalo, no bar da e scola, por 3 auxiliares?
Esta avaliação, NÃO! Calculo que a ME virá propor uma versão «simplex» para depois os miguéis sousa tavares deste mundo virem dizer que os madraços dos professores só querem passagens administrativas e simplexes. Mas esta avaliação, NÃO, nem em simplex nem em compliquex. Queremos uma avaliação séria. Que nos ajude a melhorar a nossa prática. Nenhum de nós tem a pretensão de ser perfeito. Queremos um sistema de avaliação da docência construído com a nossa colaboração – afinal, quem está na escola todos os dias somos nós. E queremos um sistema de avaliação da prática docente, não um sistema de penalização da prática docente. Se é preciso poupar dinheiro durante uns anos, nós entendemos. Mas, numa carreira horizontal como é a da docência, dizer que só 1/3 pode chegar ao topo é como dizer a uma turma de 1º ano que só 1/3 poderá chegar ao 12º ano. Somos uma classe profissional altamente qualificada: licenciatura (muitos ainda mestrado e doutoramento) e estágio de dois anos. Dizer que 2/3 de nós nunca passarão da mediocridade é assumir que as gerações futuras estão a ser educadas por um bando de medíocres. Qual é o Ministério da Educação que quer assumir isto?
Leve-se a cabo uma verdadeira reforma do ensino em Portugal, sim senhor. Consultem-nos. Nós colaboramos. Sugiro que as inutilidades folclóricas que dão pelo pomposo nome de Áreas Curriculares Não Disciplinares voltem à mente retorcida que as engendrou e de onde nunca deveriam ter saído. Inglês no 1º ciclo? Força! Mas para aprender mesmo Inglês. Duas sessões de 45 minutos por semana, com formadores de qualificação duvidosa, enquanto há centenas de professores de Inglês por colocar, é a brincar, não é?
Estatuto do aluno a sério, por favor. Ninguem chumba no ensino obrigatório? Força! Mas então queremos nas escolas os meios legais e humanos para levar cada um dos nossos alunos a dar o seu melhor. E assuma-se, de uma vez por todas, que se todos merecem ter oportunidades e meios ao seu dispor para atingirem máximo do seu potencial, nem todos têm o mesmo potencial. Peça-se a cada aluno o seu melhor e nada menos do que isso, mas também nada mais! Assuma-se que poderá haver pessoas cujo caminho, após a escolaridade obrigatória, pode não passar pela escola.
Acabe-se com o discurso de duas caras: uma que diz aos jovens «Estudem, estudem muito, todos têm direito ao sucesso, todos têm que ter formação superior para enfrentar o mercado de trabalho!», e outra quediz aos recém licenciados «Então não queriam ser doutores? Agora amanhem-se! Já deviam saber que o mercado de trabalho não comporta mais doutores!».
Talvez assim consigamos, em vinte, em quarenta anos (nunca em dois ou três, como o milagre da matemática) criar uma nova geração que valorize a educação, que não pedeça de inveja endémica e mesquinha, que honre o nosso esforço de agora e dos próximos anos. A Ministra e os Secretários de Estado andam por aí, mas nós estamos aqui. Há 5, 10, 20, 30 e mais anos. Vamos continuar aqui.

2 comentários:

Pedro disse...

Só quem "vive" a escola por dentro e passa lá dezenas de horas por semana é que sabe realmente como funcionam as nossas escolas e até que ponto chegou o facilitismo, a burocracia e o desprezo que muitos pais têm pela vida escolar...
As recentes menifestações dos alunos têm tido a vantagem de mostrar os adultos que estamos a formar... Tudo fruto da falta de exigência e rigor...
Abraço

Carlos Ponte disse...

Está visto que com esta equipa de celerados pouco mais há a fazer. Mas tem toda a razão: estes passarão e nós continuaremos por cá. Há-de custar-nos, mas consertaremos tudo o que estes figurões estão a escaqueirar. Entretanto, não baixemos os braços.
Um abraço