quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CREEEEEEEEEEPY!

Se alguma vez, num acesso de loucura, eu tiver a ideia de me convertar a uma religião qualquer - o catolicismo, por exemplo, que é a que está mais à mão de semear - bastar-me-á ler o que este homem escreve para que a ideia me passe logo.

NOTA - Não costumo linkar sites pouco recomendáveis. Faço-o desta vez, sem exemplo, porque o Público não deixa linkar estes artigos.

Os funcionários públicos, esses patifes!

Isto vem em ondas. Periodicamente vem a onda de «ódio ao funcionário público». Matem-nos! Esfolem-nos! Atirem os restos ao gato! Tirem-lhes o 13º mês, a essa cambada de parasitas! Cotem-lhes nos salários! Força! A eles, a eles, como Santiago aos Mouros!
Os comentários neste post são de ir às lágrimas!
Às vezes gostava de perceber que imagem se forma na mente de algumas destas pessoas quando começam a salivar de ódio à simples menção de «funcionário público». Calculo, até porque já o ouvi dizer, que o «funcionário público» é, para muita gente, um misto da pessoa pouco simpática e pouco esclarecedora que encontraram nas finanças ou na secretaria do Centro de Saúde, da última vez que lá foram e que de pouco lhes valeu, e um ser mítico que tem ordenado garantido, sistema de saúde próprio e reforma assegurada (num sistema que a maioria do pessoal crê ser gratuito), além de não correr o risco de ser despedido e de não pagar impostos.
Esta figura é fácil de odiar, porque a primeira componente é naturalmente antipática e a segunda é facilmente invejável.
Acontece que esta figura não existe.
As senhoras (e senhores)pouco prestáveis das Finanças, do Centro de Saúde, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (que o meu irmão já descreveu como o serviço mais democrático do país, onde todos são tratados igualmente mal) são funcionários públicos, é certo. Mas também o são os médicos do SNS, os enfermeiros, os professores da escola pública, as educadoras das salas da pré-primária, as funcionárias e funcionários (que agora dão pelo pomposo nome de «assistentes operacionais» e têm que fazer, cada um, o trabalho de quatro pessoas!) auxiliares das escolas...
Além disso, todos os funcionários públicos são pessoas. Têm os seus dias. Se é frequente encontrar pessoas pouco simpáticas e/ou pouco esclarecedoras a atender o público, isso deve-se a uma estranha política seguida pelas chefias da Função Pública nacional há muitas décadas, de pôr a atender o público os funcionários menos competentes, sob o pretexto de que, noutra posição, fariam pior ao serviço. Custa-me a imaginar que se possa fazer pior por um serviço do que dar dele ao público uma imagem de antipatia e incompetência, mas parece que não há muitas chefias da função pública apensar assim.
É verdade que a função pública tem o seu próprio subsistema de saúde e de reforma, mas paga-os com língua de palmo. E, já o disse uma vez e repito-o, se estes sistemas são melhores do que os que abrangem a restante população trabalhadora, a luta deveria ser para que o sistema geral passasse a ser igual ao da função pública, ou seja, deveria ser no sentido de obter o melhor para todos e não no sentido de reduzir todos ao pior.
TODOS os funcionários públicos pagam impostos. O IRS já nem sequer o recebem, é-lhes descontado à partida. E quando fazem compras, pagam IVA como toda a gente, pagam o IMI como todos os portugueses que têm casa própria, pagam o IPP sempre que abastecem o carro... ou alguém acha que, quando vou meter gasolina, me perguntam na bomba se sou funcionária pública e me levam mais barato por causa disso?

Se o Governo decidir cortar o 13º mês aos funcionários públicos, o sector privado vai aproveitar a deixa e fazer o mesmo. Se o Governo decidir cortar 5, ou 10 ou 20% nos salários da função pública, o sector privado vai aproveitar a deixa e fazer o mesmo. Alguém se lembra do velho ditado que diz que não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010