terça-feira, 30 de setembro de 2008

O passe da minha filha

Uma aventura com traços de surrealismo
Este ano resolvemos pedir um passe para a nossa filha mais nova. Aprender a andar de autocarro faz parte da educação dela. Pensava eu que se tratava de uma processo simples: preencher um papel, entregá-lo junto com uma fotografia...
Como me enganei! Depois de ter entregue o papel, a fotografia e um comprovativo da morada, fui de férias, pensando que o caso estava arrumado. Lá para meio de Agosto, telefonam-me da Câmara: como a nossa área de residência pertence a outra Câmara, tenho que ir pedir à Câmara da área de residência um papel que confirme que a criança tem direito ao transporte escolar.
Lá vou. Na Câmara, informam-me de que só me passarão dito papel se eu trouxerum outro, da Escola, garantindo que a criança lá está matriculada.
Vou à escola. O meu marido desloca-se à secretaria, deixando-me no carro, e pede o tal papel. Não lho dão, porque o Encarregado de Educação sou eu. O meu marido traz-me o pedido ao carro, eu assino-o, e ele regressa à secretaria onde, apesar de insinuarem que ele falsificou a minha assinatura, lhe dão o tal papel. Nisto gastou-se um dia.
Dia seguinte. Regresso à Câmara da minha área de residência, onde me dão o segundo papel, o tal que confirma que a minha filha tem direito ao transporte escolar. Vou à Câmara da área da escola entregá-lo mas não tenho sorte nenhuma porque, em época de descentralização, o serviço que trata dos transportes escolares foi descentralizado e fica agora numa freguesia a 13 quilómetros. Percorro os 13 quilómetros e entrego o papel. Gastei dois dias de férias, mas acho que o problema está resolvido. Como sou ingénua!
Na primeira semana de aulas, levo a minha filha à escola, às 8 e 20 da matina e pretendo ir ao SASE levantar o passe da criança. Não posso entrar, pois o SASE só abre às 9 e meia. Bebo um café, leio o jornal - nesse dia só entro à uma e meia da tarde - e espero que sejam nove horas. Entro na Escola e dão-me uma senha, com o número 5. Espero. Espero. Espero. Ao meio dia e meia hora entra no SASE a pessoa que tem o número 3. Desisto.
Uma semana depois, de café bebido e armada de jornal, estou à porta da escola às 8 e meia e espero, a pé firme, pela distribuição das senhas. Às nove menos cinco distribuem-me a senha número 1. Às nove e quarenta e cinco entro no SASE. Em câmara lenta, a única funcionária pergunta-me o que desejo. Peço-lhe o passe da minha filha e o respectivo selo mensal. Sempre em câmara extremamente lenta, a funcionária procura o passe, entrega-mo, e depois começa a ler uma imensa lista de nomes com cerca de 5 páginas - o nome da minha filha não vem lá, de certeza não entreguei os papéis! Entreguei sim senhora, comprovo que entreguei. Pede-me então que lhe deixe o passe e o meu número de telefone: quando tiver tempo, telefonará para a Câmara e tentará saber o que se passa.
Uma semana depois, não tendo recebido qualquer telefonema, repito o procedimento: espera à porta da escola, senha número 1, mais espera. De novo sou a primeira a entrar, lá pelas dez menos cinco. Na habitual câmara lentíssima, a funcionária diz-me que reina na divisão de transportes escolares uma imensa confusão e que ainda não conseguiu saber o que se passa com a senha mensal do passe da minha filha, e que, «se ela tiver direito a senha», só terá a partir de Outubro. Informo a senhora de que não sairei dali sem o assunto resovido e de que a minha filha terá, de certeza, direito a senha de passe. Alguma coisa na minha cara lhe diz que estou disposta a fazer o que digo, pois pega no telefone e liga para a supracitada divisão de transportes escolares, onde, ao fim de menos de um minuto, é informada de que o nome da minha filha consta, na linha número x da página y da lista que lhe enviaram por mail há já duas semanas. A contragosto, reconhece que há muito tempo não vê o mail. A contragosto entrega-me o passe da criança.
Na era da internet, no país do simplex, gastei dois dias e três manhãs e tive que transportar a minha filha durante a metade do mês de Setembro em que teve aulas. Caro passe gratuito!

3 comentários:

Setora disse...

O que aconteceu consigo deve ter acontecido a milhares de pessoas. Era poeira para os olhos! O mesmo deve estar a passar-se com a "simplificada" atribuição de escalão da ASE. Ainda há muitos alunos sem almoço, sem materiais...
Nesses sítios por onde andou, pedir o livro amarelo ajuda, embora traga grandes torcimentos de nariz.

João Reis Ribeiro disse...

Afinal, o país feliz existe mesmo! É este que surge no teu postal... Razão tinha o Mário Soares com o "direito à indignação"! Só que os tempos eram outros... e o país não era tão feliz! Anacronismos, não?

neto disse...

acho linda essa estóirias, ao meu ver parece-me que estão a testar nossa paciência ou os orgãos são mesmo incopententes e desorganizados, aliás a maneira rude das pessoas tratar as outras deve ser pela frieza e desgosto salarial....
celso neto
www.celsonosy.blogspot.com