Devo andar muito cansada. Ter o horário, não de efectivo trabalho apenas, mas de permanência fira de casa praticamente duplicado, ao fim de seis ou sete anos começa a notar-se.
Não vou discutir pela n-ésima vez se os professores trabalham muitas ou poucas horas. É um peditório para o qual já dei até quase me arruinar. A maioria das pessoas tem da escola a ideia que formou como aluno e só levando-os lá e mostando-lhes como é, de facto, visto do lado de cá da secretária... Portanto, e recapitulando, não vou discutir o sexo dos anjos.
Objectivamente falando, talvez porque dobrei o cabo dos 50, talvez porque,
para além do trabalho, tenho mais coisas a dar-me preocupações, ando muito
cansada. O cansaço atinge-me de muitas maneiras. Acordo cansada. Chego ao
domingo e começo a deprimir-me porque no dia seguinte é segunda feira. Deixo
acumular trabalho porque não me sinto com forças para o fazer e não consigo
repousar devidamente porque a consciência me acusa de estar a deixar acumular
trabalho.
Já tomei vitaminas e magnésio, já voltei às minhas sessões de reiki mas o
cansaço não se deixa enganar. Só retomarei a forma descansando, que é,
precisamente, o que eu não posso fazer. O meu horário deste ano, obriga-me,
entre aulas, actividades «não lectivas», absurdas «horas de almoço» de três
tempos e desencontros com o horário da minha filha, a estar na escola trinta e
sete tempos lectivos. Nas segundas feiras estou na escola das oito e trinta da
manhã às seis e trinta da tarde: dez horas seguidas. E já não tenho os vinte e
três anos de quando comecei a ensinar e tinha que me levantar às seis da manhã
para entrar na escola às onze e vinte, depois de ter apanhado três autocarros e
subido toda a Rua Carvalho Araújo, na Damaia. Nessa altura, depois da odisseia
matinal, eu chegava à Escola com a energia intacta. Agora, quando saio de casa
já vou estafada.
No sábado passado, a subir as escadas lá de casa, dei de repente comigo a
ter que pensar como é que se sobe uma escada. Repito: tive que pensar como é
que se sobe uma escada. Ensarilhei-me e ia caindo. É assustador. É cansaço. Só
passa descansando, que é, precisamente, o que eu não posso fazer.