quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As últimas da Gramática



Uma colega que tem andado em «formação» sobre a nova terminologia gramatical (a defunta e nada saudosa TLEBS, actual sabe-se-lá-o-quê) veio de lá com a ideia brilhante que, ao implementar os novos programas do 3º ciclo, deveremos ser contra a «gramática normativista». Se a gramática é um conjunto (lá está) de normas, não vejo como pode deixar de ser normativista, pelo que espero com impaciência os desenvolvimentos.
Parece também que, quando se implementar o dito programa, as crianças deverão ser deixadas a intuir as regras. Nada de dar regras aos meninos, é deixá-los descobri-las sozinhos. A roda já foi inventada, mas é sempre bom inventá-la de novo, certo? Eu dava aos autores desta pérola duas toneladas de alumínio, umas ferramentas e dizia-lhes que fizessem o seu próprio automóvel: já viram tantos que devem, com certeza, intuir como se faz um.
E, já que estamos com as mãos na massa, eu acabava com a legislação normativista. Depois de ser atropelado umas cinco ou seis vezes, qualquer indivíduo esperto deve intuir que andar pelo meio da estrada é capaz de ser má ideia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

As boas escolas



Parece que são as católicas, por cá. Pelo menos, era o que vinha no jornal.

Não tenho parti-pris especial contra escolas confessionais. Não matricularia as minhas filhas numa, mas acho que quem quer deve poder fazê-lo.

Vamos à exigência e ao rigor: a escola pública, neste momento, está proibida de exigir e de ser rigorosa. E está tão carregada de «coisas» que, na opinião de uns sábios quaisquer, têm que ser ensinadas na escola, que já não tem tempo para ensinar muito. É a educação alimentar, a educação ambiental, a educação sexual e para a saúde, a educação do consumidor, a educação para a economia, a formação cívica e o estudo acompanhado e a área de projecto...

Acrescenta-se a isto uma interpretação errada e tonta do que significa «igualdade de oportunidades». E ainda, porque uma desgraça nunca vem só, o facto de que muitas das crianças que chegam à escola vêm em «estado bruto»: não aprenderam as mais elementares regras da vida em sociedade e, portanto, dizem e fazem tudo o que lhes passa pela cabeça, são incapazes de resistir à mais pequena frustração e chegam ao infantário com milhares de horas de televisão no bucho.

Portanto e recapitulando: na escola pública têm que caber todos os meninos (e ainda bem); cada pai ou mãe, que não tem tempo para educar os filhos, quer que o seu rebento seja tratado como o filho único de uma senhora viúva; o professor, cada vez mais mal tratado, mais mal pago e com menos formação inicial, tem que ser professor, pai, psicólogo, ama-seca, entertainer, polícia sinaleiro, especialista em perturbações da personalidade e do crescimento, médico generalista, enfermeiro e burocrata.

Precisarei de dizer mais?

sábado, 29 de agosto de 2009

E vão duas...

Nos meus longínquos tempos de militância comunista, dizia-se que os comunistas, horror supremo, impediam as pessoas de viver onde elas quisessem. Bichanava-se com reiterada e virtuosa indignação: para sair do país, é preciso autorização do estado. Para sair da cidade, é preciso autorização do estado. E seguia-se a apaixonada defesa da liberdade de escolha, «cada um deve ter o direito de viver e trabalhar onde quiser!». Agora, a avaliar por alguns comentários que li aqui, cada um deve ter o direito de viver e trabalhar onde quiser, desde que não queira vir para a Europa...
Vou de surpresa em surpresa!
Volta, Lenine, que estás perdoado!

domingo, 26 de julho de 2009

Bem sei que é por estas e por outras que o mundo se não volta...

... mas custa-me ler alguns dos comentários deste post. Penso participar o mais activamente que puder na campanha eleitoral mas, apesar de execrar o nosso actual PM, não acho que valha tudo.
Claro que todos têm direito às suas opiniões. Nunca me passaria pela cabeça pugnar pela proibição da expressão de ideias, ainda que possa estar em absoluto desacordo com elas.
Assim, e porque durante as próximas seis semanas devo estar relativamente ausente das blogações, aqui fica:
Apesar de achar que o actual PS é tão socialista como a Coca-Cola, ou talvez até menos, ainda prefiro que o PS ganhe. Espero, PORÉM, que ganhe sem maioria absoluta e seja forçado a fazer alianças e compromissos à sua esquerda.
Desejo ainda que todos aqueles que, improvável e inesperadamente, aparecem em lugares elegíveis nas listas do PS façam mesmo a diefrença se e quando forem eleitos.
Finalmente, recuso-me e recusar-me-ei sempre, a insultar pessoas que respeito e por quem nutro algum grau de afeição, apenas porque declaram a sua intenção de votar PS ou porque são candidatas pelo PS.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Já agora:

E depois de dar uma voltinha pelos blogues - hoje já saí da escola - e de ler umas coisas.

A educação não pode funcionar numa base de produto-cliente. A instrução fornecida na escola é um serviço, mas não um produto e nem os alunos nem os pais destes são clientes.
Tenho lido delírios sobre como os nossos alunos ou os seus pais são clientes a quem a escola deve dar o que querem. Será que quem escreve estes disparates consegue bem alcançar o que está a propor?



Estão a imaginar a escola a dar aos fifis e aos papás o que eles quiserem?

Sim, bem sei que os professores estão sempre-de-férias...

... mas eu não consigo pertencer a esse grupo de bafejados pela sorte. Continuo a passar os dias enfiada na escola. Ele é matrículas, reuniões e mais reuniões, os cef que não há meio de acabarem...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

E, de repente...

... gente que apregoa a sua filiação na esquerda, que enche a boca com o PS - aqui entendido como Partido Socialista - gente que apregoa a superioridade do dito Partido na luta contra a ditadura, acha que sim, que deve passar a haver câmaras e gravadores nas salas de aula, que os bons professores não se importarão por certo de ser gravados e os que se importarem serão, por definição, maus professores, incompetentes, quiçá criminosos...
Mas o que é que se está a passar neste país?

Depois de muito pensar...

Começo por dizer que não conheço a professora em questão, e não consegui ouvir a gravação integral no site do DN porque os computadores a que tenho acesso não têm som.
Continuo, dizendo que compreendo algumas declarações de pais que fui lendo na Net – cada pai ou mãe pensa nos seus filhos, nos amigos deles, nos miúdos que conhece…
Agora, posto o que atrás fica dito, o que mais me assustou foi a presteza de comentadores televisivos e bloguistas (sabendo que estão a ser gravados e lidos) em considerarem a professora como padecendo de problemas mentais e incapaz de dar uma aula mais que seja.
Como professora há 25 anos, sei que os adolescentes se têm vindo a especializar numa prática em que já eram bastante bons à partida: a arte de puxar pela corda até levar um adulto ao descontrole. Quem, lidando diariamente com adolescentes, nunca teve que reprimir uma vontade violenta de esbofetear um deles, que me venha desmentir.
Tudo o que ouvi dizer à professora de Espinho (era Espinho?) cabe no rol de asneiras que se dizem quando somos levados a perder a cabeça. Se fôssemos gravados sempre que perdemos as estribeiras, calculo que sairiam coisas semelhantes.
Não estranharam o silêncio da turma? Não vos incomoda que uma mãe desse à filha um gravador para que a turma «puxasse» pela professora e a levasse a dizer, para o gravador cuja existência ignorava, coisas de que depois se arrependeria?
Uma professora também é um ser humano. Perde a cabeça, irrita-se, diz coisas que não devia. Estamos todos assim tão certos de que, na mesma situação, teríamos um comportamento irrepreensível?
Muitas vezes, quando os meus alunos estão demasiado barulhentos, ameaço: «Será que tenho que matar um de vocês para exemplo dos restantes?» Eles riem-se e o barulho acalma por uns dez minutos. Imaginem esta frase gravada e passada numa televisão com o rodapé «Professora ameaça alunos de morte».

Uma mera opinião que não pretende ser mais do que isso mesmo: uma mera opinião.

Estive a ler
isto, com crescente interesse.
Por coincidência houve uma conversa sobre o mesmo tema (ou tema aparentado) lá na sala de profes. Parece-me que a herança romântica das paixões assolapadas como fundamentação de casamentos é uma rematada asneira. Sempre tive para mim que se o Simão e a Teresa chegassem a casar, aquilo não durava seis meses.
Como vivemos numa sociedade televisiva e cheia de artigos descartáveis, a televisão vende às pessoas a peregrina ideia de que, se não estão felizes (sempre a sorrir, aos pulos, magros, loiros, maquilhados e jovens), é porque estão a fazer alguma coisa mal. Vai daí, o p'ssoal casa e assim que deixa de se sentir feliz,sei lá,no dia em que sobra mês no fim do ordenado, ou em que não apetece o truca-truca porque se está cansado ou... sei cá eu, essas coisas que minam as paixões assolapadas! - zut! Vamos divorciar e «tipo» casar outra vez, e repete, e repete, e repete...
Na minha curta experiência, os casamentos estáveis resultam de pares que ultrapassaram a paixão (assolapada ou nem por isso) e continuam a entender-se e a respeitar-se mutuamente, e a fazer cedências de parte a parte. O hábito pode não fazer o monge mas os bons hábitos costumam fazer bons casamentos.

NOTA - A autora é o mais possível a favor de legislação que permita e facilite o divórcio a quem o deseja, até por estar convicta de que nenhuma lei obrigará a ficar juntas duas pessoas que não querem estar juntas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quanto melhor pior, ou quanto pior melhor, ou quanto melhor fores pior para ti?

Li com a moderação que consegui.
Talvez a pergunta (retórica ou não) que vou colocar seja uma crueldade, mas não posso deixar de a fazer: justifica-se escolher a dedo os melhores professores para lidar com os piores entre os piores alunos? Ser mau aluno é que está a dar? Para os bons e para os muito bons alunos, qualquer coisinha serve? E, já agora, como vamos motivar a próxima geração de professores? Discursos do tipo: quanto melhores forem piores serão os alunos que vos irão parar á sala de aula?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A minha aluna romena

Estou a encenar (outra vez) o Auto da Barca do Inferno com a minha melhor turma de 9º ano. É um trabalho insano, mas o resultado é sempre bom e os moços aprendem muita coisa no processo. Desta vez, o único trabalho que levaram para as férias da Páscoa foi decorarem os respectivos papéis. A minha aluna romena chegou ao primeiro ensaio após as férias com o papel na ponta da língua e o seu maior espanto foi ver que nenhum dos colegas portugueses tinha feito o mesmo.
A diferença básica entre esta jovem romena e os seus colegas de turma (que até são muito bons alunos) é que ela respeita a escola e os professores - se um professor lhe dá um trabalho para fazer, ela fá-lo, e nem lhe passa pela cabeça não o fazer.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A TRETA DOS IMPOSTOS, OS IMPOSTOS DA TRETA E OS IMPOSTORES

A blogosfera está cheia, a deitar por fora, de indignados cidadãos que pagam os seus impostos e que, visto isso, não estão dispostos a «sustentar» as «mordomias» «dessa gente» (leia-se «funcionários públicos») que «nem impostos paga».
Longe de mim pugnar contra o seu legítimo direito de se indgnarem e tal, mas, já agora, gostava que soubessem bem com o que se indignam.
«Essa gente» são os funcionários das finanças, que até podem ser antipáticos às vezes, sobretudo quando cumprem ordens surreais vindas dos insuspeitos senhores que nos governam, mas que vos ajudam a preencher os impressos; são os médicos que vos tratam quando estão doentes; são os enfermeiros que vos vacinam; são os professores que vos educam os filhos e os auxiliares que tomam conta deles; são os polícias que vos defendem os bens; são os homens e mulheres que varrem as ruas que vocês sujam e delas retiram o lixo que vocês fazem... vamos lá a um bocadinho de respeito,sim?
«Essa gente» paga impostos. Quando se quer lixar os funcionários públicos, avança-se com os salários brutos, que nenhum deles recebe. Os funcionários públicos, como qualquer trabalhador por conta de outrem, têm o IRS descontado automaticamente. Têm ainda descontada a contribuição para a ADSE e para a Caixa Geral de Aposentações. E pagam IVA em cada coisa que compram. E IMI pelas suas casas. E IA pelos seus automóveis. E Imposto sobre os Produtos Petrolíferos na gasolina, no gasóleo e no gás. Ou alguém acredita que quando vou à bomba meter gasolina me perguntam se sou Funcionária Pública e me vendem a gasolina mais barata por via disso?
Agora, força nessa indignação, depois de responderem a esta: em vez de gritar para que se tirem aos funcionários públicos as coisas boas que, pelos vistos, eles têm e vocês não, não seria melhor gritar para que vo-las dêem também? Não seria melhor, pergunto eu, estarmos todos melhor, em vez de estarmos todos pior?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Escrito à pressa...

... e com a devida vénia à Isabel Coutinho (que nem sequer conheço) que escreveu o que a seguir cito, num comentário do Arrastão (link ali ao lado):

Trabalhadores privados contra Trabalhadores da Função Pública e vice-versa;
Empregados contra Desempregados e vice-versa;
Activos contra Reformados e vice versa;
Precários contra os do Quadro e vive-versa;
Independentes contra Dependentes e vice-versa;
Novos contra Velhos e vice-versa;
Pobres contra Ricos e vice versa;


E eu só acrescento: por que carga de raios somos assim? Por que demónio é que, em vez de nos unirmos contra um governo que pretende lixar-nos a todos, aplaudimos de pé enquanto achamos que ele está a lixar os outros e que a nós não há-de calhar nem uma folhinha de lixa? E só nos lamentamos quando, finalmente, nos toca, salvaguardando, no entanto, que os outros deverão sempre, e por todos os meios ser lixados?
Que merda de país triste este!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Efeméride (muito) pessoal


O meu avô Zé faria hoje 100 anos. Não se passa um dia sem que sinta a sua falta. Na nossa família, em que quase todos têm imaginações vivas e trabalhadoras, às vezes em excesso, o avô era uma âncora na realidade.
Deixo-o aqui, acompanhado pelo grande amor da sua vida, a avó Maria. São o meu exemplo pessoal de casal perfeito.

E parabéns ao meu pai, que também faz hoje anos.

terça-feira, 10 de março de 2009

Primavera



Um par de pintassilgos está a fazer ninho mesmo em frente da minha janela. Ainda ontem andavam num namoro descarado... e hoje apanhei o pintassilgo em flagrante delito, com palhas no bico, a entrar à sorrelfa no emaranhado de ramos da mimosa.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Volta Lenine, estás perdoado...

Nos meus tempos de militância comunista - mais antigos que a Sé de Braga - lembro-me que um dos horrores de que se acusavam os comunistas era de tirarem as crianças aos pais, para serem «educadas pelo estado». Era assim que se dizia, «educadas pelo estado», de olho arregalado e em alvo pela enormidade da coisa.
Agora, são os pais a reclamar que a escola pública - c'est à dire, o Estado - lhes leve os filhos e os eduque, para eles poderem trabalhar também à noite e aos fins de semana. E, entre os poucos que reclamam contra as escolas-armazém de crianças tiradas aos pais, ainda que a pedido destes, estão os comunistas. Está o mundo roto e chove nele como na rua, diria a minha avó.

O cheque

Quando fui aliviada da carteira, claro que também lá ia o cartão da ADSE, que eu cá, quando perco, é em grande estilo: vai tudo!
Fui à secretaria da Escola pedir uma 2ª via.
Na era da Internet e do Simplex, tive que preencher um impresso a pedir uma 2ª via, escrever uma carta ao Exmo Director Geral a pedir que se digne a mandar passar a tal 2ª via, que já pedi no impresso e, surrealismo supremo, passar um cheque de ... 2€! Um cheque de 2€! Vou ter que ir ao banco - eu que há anos não uso cheques - pedir cheques, para passar um cheque de 2€...